Quando a porteira se abre

Texto por: Publicado em: 14 de outubro de 2026

Em Delfinópolis, uma produtora de cafés especiais transformou lavoura, paisagem, sabores e a própria história em experiência para quem chega ao campo. O caminho de Ana Trindade revela um movimento que cresce em Minas e abre novas possibilidades de renda e valorização para as propriedades rurais

Ana Trindade nunca planejou trabalhar com turismo. Na verdade, quando comprou uma área no bairro Serrinha, em Delfinópolis/MG, em 2006, tampouco imaginava todos os caminhos que aquela decisão ainda abriria.

A compra, conta ela, aconteceu “no susto”. Uma amiga havia adquirido uma propriedade na região e a convidou para conhecer o lugar. Ana foi, ficou impactada pela paisagem e, na semana seguinte, voltou para comprar a área vizinha.

Executiva até então, começaria ali uma mudança de vida que a levaria à produção de cafés especiais. Anos mais tarde, o caminho que a levou ao campo passaria a levar também pessoas de diferentes partes do país até sua propriedade, curiosas para descobrir o que existe antes de uma xícara de café.

Curiosamente, abrir a fazenda para visitantes nunca esteve em seus planos. “Eu nunca tive interesse em ter uma atividade relacionada ao turismo. Sempre tive interesse em fazer parte da comunidade em que vivo”.

Foi esse envolvimento com o território que veio primeiro. Ana participou das discussões envolvendo a comunidade tradicional canastreira e o Parque Nacional da Serra da Canastra e se aproximou de outras necessidades locais. Uma delas foi a sinalização dos empreendimentos da região — atrativos naturais, restaurantes e queijarias. O turismo viria depois, quase como consequência.

Hoje, quem chega à propriedade encontra muito mais do que uma lavoura de café.

Boa parte dos visitantes nunca viu um pé de café. Outros desconhecem as frutíferas do Cerrado ou o trabalho e os riscos que existem por trás da produção. E não demora para perceberem que aquela também não é uma lavoura convencional.

“A presença abundante da fauna é visível, assim como os cuidados com a lavoura. Isso pode ser percebido, por exemplo, pela diferença de temperatura e pela quantidade de matéria orgânica presente no solo”, conta. Resultado do trabalho de culturas consorciadas que realiza junto com o café.

O passeio transforma conceitos como sustentabilidade e produção regenerativa em algo que pode ser visto, sentido e experimentado. Ana Trindade também aprendeu a olhar para a propriedade com os olhos de quem chega. Desenhou caminhos, organizou o roteiro, definiu o tempo da visita e estruturou estacionamento e receptivo. Foram poucas intervenções físicas, mas suficientes para transformar aquilo que fazia parte de sua rotina em uma experiência para outra pessoa.

Café especial Serra Preta, queijo Canastra e goiabada.

Para um mineiro, a combinação pode parecer quase familiar. Para visitantes vindos de São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina ou Rio Grande do Sul, ganha outros significados quando é experimentada diante da paisagem da Serra da Canastra e depois de conhecer a lavoura onde aquele café nasceu.

“O meu café está dentro deste território riquíssimo que é a Serra da Canastra. Não posso deixar de apresentar ao turista esta harmonização perfeita: café, queijo Canastra e goiabada”, frisa.

É talvez nesse momento que a experiência oferecida por Ana revela algo importante sobre o turismo rural: nem sempre é preciso inventar uma atração. Às vezes, o valor está justamente naquilo que já faz parte do território.

O produto, a paisagem, a comida, a rotina da propriedade e a história de quem vive ali deixam de existir separadamente e passam a compor uma experiência. Para Ana, a mesa tem ainda outro valor. Não está ligada necessariamente a uma memória familiar, mas a algo de que ela gosta especialmente: conversar. É ali que encontra pessoas de diferentes lugares, escuta suas histórias e conta a própria.

O movimento observado em Delfinópolis se repete em diferentes regiões mineiras. A terceira edição do Ruralidade Viva, catálogo lançado pela Emater-MG em 2026, reúne 266 propriedades e experiências turísticas, contra 137 na edição anterior. São empreendimentos que associam a vivência no campo a cafés, queijos artesanais, doces, cachaças e outros produtos locais, fazendo do turismo uma alternativa de diversificação de renda.

Mais do que transformar propriedades em pontos turísticos, a tendência abre a possibilidade de transformar aquilo que o produtor já faz em parte da experiência de quem visita.

O cotidiano da propriedade, quando compartilhado, também pode ganhar um novo significado — e um novo valor. Na propriedade de Ana, esse valor não termina quando o turista vai embora.

Ela comercializa somente o seu café: o Serra Preta. Para queijo e outros produtos da Canastra, prefere indicar queijarias e empórios da região. Mas percebeu um comportamento interessante entre aqueles que passam por ali. Os visitantes fotografam, publicam a experiência nas redes sociais, marcam o Serra Preta e recomendam o café. Muitos, depois, tornam-se clientes. “Ah, importante: muitos se tornam consumidores habituais, e envio o meu café pelos Correios”, conta.

Mas algo começou a chamar sua atenção entre as pessoas que chegam à propriedade. Elas querem conhecer o café. Querem caminhar pela lavoura e estar perto da natureza. Mas querem também conhecer quem vive ali. Ana percebe isso desde o primeiro contato.

Entre os visitantes estão jovens adultos — muitos deles “coffee lovers” — e um público adulto que chega de diferentes estados.

“As pessoas têm vindo ao campo em busca do contato com a natureza. É nítida a necessidade desse contato. É um momento de respiro, de resgate e, às vezes, até um ponto de inflexão”, observa.

Talvez isso ajude a explicar por que, entre tantas perguntas possíveis sobre café, agricultura e sustentabilidade, uma se repete. As pessoas querem saber sobre ela. Como uma executiva foi parar ali? Como construiu aquela vida? Como alguém chega aos “60 e tantos anos”, como brinca Ana, vivendo em um lugar como aquele? A propriedade deixa então de ser apenas cenário. A trajetória de quem produz passa a fazer parte da experiência.

Vinte anos depois daquela primeira visita à Serrinha

Ana Trindade produz cafés especiais, recebe visitantes, apresenta a agricultura que escolheu praticar e transforma a própria fazenda em uma maneira de contar histórias sobre café, natureza e território.

O turismo trouxe receita, consumidores e visibilidade ao Serra Preta. Mas talvez seu efeito mais interessante tenha sido revelar valor onde antes existia apenas cotidiano.

Uma lavoura virou experiência. Uma mesa com café, queijo e goiabada passou a contar sobre a Canastra. E uma história de vida se tornou parte daquilo que as pessoas atravessam quilômetros para conhecer.

Quando perguntamos se algum dia imaginou chegar até aqui pelo turismo, Ana volta ao início. Não havia plano. Havia o desejo de pertencer à comunidade onde escolhera viver. O resto, diz ela, foi consequência. E encerra nossa conversa recorrendo a Zeca Pagodinho: “Deixa a vida me levar…”.

A vida levou Ana até Delfinópolis. O café abriu outros caminhos. E, hoje, é ela quem abre a porteira para que outras pessoas possam chegar até lá.

One Comment

  1. Maria Vitória Bueno 16 de outubro de 2026 at 10:03 - Reply

    É muito lindo ler histórias inspiradoras como essas… e por aqui deu vontade de conhecer a Fazenda!

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