A Árvore da Vida

Texto por: Publicado em: 8 de junho de 2026

Bem antes do dia 30 de maio, recebi uma ligação da minha sobrinha-neta, Lavínia. Do outro lado da linha, veio uma pergunta inesperada:

— Tia Denisinha, qual vai ser o tema do aniversário da bisa este ano?

Ela se referia aos 104 anos da minha mãe, que seriam comemorados em 2026. Confesso que ainda não havia pensado muito no assunto. Minha ideia era apenas criar uma camiseta com o nome de todos os familiares. Mas Lavínia tinha um plano melhor.

Ela sugeriu que o tema fosse a Árvore da Vida.

A ideia fez todo sentido. Afinal, como representar melhor uma mulher que chegou aos 104 anos lúcida, saudável e cercada por tantas gerações? Enquanto Lavínia desenhava a árvore, nós tentávamos encontrar espaço para acomodar cada filho, noras, netos, bisneta e agregados que, de alguma forma, nasceu dos galhos dessa grande família.

Sem perceber, estávamos fazendo mais do que preparar uma festa. Estávamos desenhando, em forma de árvore, a história de uma vida inteira.

A primeira missão não foi simples: encontrar espaço para tantos nomes na arte da camiseta. Convidei a Lisa, designer e amiga, para nos ajudar. Mas traduzir em desenho aquilo que carregávamos no coração não era tarefa fácil. Afinal, estávamos falando de uma família espalhada entre Minas Gerais e São Paulo, com raízes profundas e muitos galhos.

Da ideia inicial da Lavínia surgiram os primeiros esboços. Depois, a Carina foi além. Com a ajuda da inteligência artificial, incorporou à arte elementos que contam a nossa história: a Serra da Tormenta, tão presente em nossa paisagem, e produtos que remetiam à atividade que marcou a vida da mamãe, a confeitaria.

A etapa final ficou por conta da Carol, que teve a sensibilidade de organizar os nomes em corações coloridos. Vermelhos, rosas, azuis, amarelos, laranjas e verdes passaram a representar filhos, netos, noras, bisnetos e, também, aqueles que já partiram, mas continuam ocupando um lugar permanente na árvore da nossa família.

Quando a arte ficou pronta, surgiu uma última dúvida: camiseta branca ou preta? A decisão foi para votação no grupo da família. Democracia em ação. A camiseta preta venceu.

Confesso que fiquei receosa no início. Mas, quando vimos o resultado final, entendemos que a escolha não poderia ter sido melhor. Ali estava muito mais do que uma camiseta. Estava desenhada, em cores e afetos, a história de 104 anos de uma vida que continua unindo gerações.

Tendo sido confeiteira por toda a vida, mamãe nos deixou uma herança que vai muito além das receitas: o gosto por reunir pessoas. Talvez por isso organizar festas esteja no DNA da família.

Como o aniversário caiu em um sábado, logo surgiu a ideia de reunir todos para um grande almoço. Mas veio a pergunta inevitável: o que servir para tanta gente e, ao mesmo tempo, agradar a todos? A sugestão da Rose resolveu a questão. Feijoada. Aprovada por unanimidade.

Definido o cardápio, começaram os preparativos. O primeiro desafio foi encontrar um espaço capaz de receber cerca de 70 pessoas. Nos últimos anos, a comemoração havia acontecido na casa da Marina, mas desta vez a família havia crescido demais para caber ali. O Denio resolveu esta questão.

Com o local definido, a rede de colaboração entrou em ação. Nívea assumiu a produção da feijoada, que se transformaria em um dos grandes sucessos do encontro. A Lu Festas cuidou da decoração do salão, com alguns detalhes e acessórios cedidos pela Yamara. Os doces ficaram sob a responsabilidade da Sônia, talvez a filha que mais herdou o talento da mãe para a confeitaria. Ela preparou figos em calda, doce de abóbora e outras delícias que remetiam às nossas origens rurais.

O bolo, naturalmente, seguiu o estilo que mamãe sempre gostou. Enquanto isso, Carina, com o olhar atento de nutricionista, tratou de equilibrar o cardápio com entradas mais leves para acompanhar a feijoada. Maria Vitória ficou responsável pela música, Mara organizou a equipe de garçons e Frank registrou cada momento através de suas fotografias.

E, em meio a tantos detalhes, havia uma certeza: não poderia faltar na play list a música “É preciso saber viver”, nosso hino desde o aniversário do centenário. Afinal, algumas tradições são tão importantes quanto o bolo, os doces e o próprio parabéns.

Quem vê a mamãe pela primeira vez pode até imaginá-la uma pessoa séria. Mas basta conviver alguns minutos com ela para descobrir qual foi sua maior obra ao longo de 104 anos: reunir pessoas.

Receber bem sempre foi um dos seus talentos. Talvez porque tenha aprendido, ainda muito cedo, que a vida só faz sentido quando compartilhada.

Nascida na zona rural, no início do século passado, conheceu uma realidade muito mais dura do que a que vivemos hoje. Ainda assim, desenvolveu uma delicadeza difícil de explicar. Uma elegância natural, uma sensibilidade para as pessoas e uma capacidade quase artística de transformar o simples em algo especial. Talvez haja nisso um pouco da herança portuguesa recebida do lado paterno e da sensibilidade herdada da família materna.

Como tantas mulheres de sua geração, aprendeu no campo os saberes essenciais da vida: plantar, cozinhar, tecer, fazer quitandas e cuidar da casa. Mas não parou aí. Reinventou-se muitas vezes. Foi mãe, costureira, bordadeira, confeiteira e quitandeira. Na padaria criada por meus pais, aperfeiçoou talentos que continuou desenvolvendo por décadas, sempre em busca de novos cursos, novas receitas e novos conhecimentos.

Uma das marcas mais bonitas da sua trajetória é que nunca deixou de aprender. Sua biblioteca de culinária crescia junto com sua curiosidade. E, enquanto aprendia, fazia amigos. Muitos amigos.

Assim, sua árvore da vida foi ganhando novos galhos. Alguns partiram ao longo do caminho. Outros chegaram. Familiares, vizinhos, amigos, genro, noras, netos e bisnetos foram ampliando essa rede de afetos que ela construiu com tanta naturalidade.

Mas existe um traço que talvez explique todos os outros: sua confiança na vida. Mesmo diante das dificuldades, nunca perdeu a capacidade de acreditar que tudo daria certo. Essa força silenciosa, cultivada durante mais de um século, talvez seja uma das raízes mais profundas da árvore que hoje celebramos.

E, finalmente, chegou o grande dia.

A família veio de longe. De Juiz de Fora, São Paulo, Belo Horizonte e de tantos outros caminhos para se juntar aos familiares de Carmo do Rio Claro. Alguns chegaram dias antes e a festa começou muito antes da data marcada. Conversas se prolongaram pela noite, histórias foram relembradas e os reencontros já anunciavam a celebração que estava por vir.

No dia 30 de maio, juntaram-se aos familiares os amigos, vizinhos e pessoas que fizeram parte da trajetória ao longo do ano. Entre abraços demorados, risadas, fotografias e muitas recordações, havia um sentimento comum: gratidão pela vida.

E a matriarca estava lá. Firme, lúcida e participativa, recebendo cada convidado como sempre fez ao longo da vida. Comemorou à sua maneira, com sua tradicional dose de cachaça e um sorriso de quem estava exatamente onde mais gostava de estar: cercada pelas pessoas que ama. Porque, se existe algo que sempre fez sua felicidade, foi ver a casa cheia e testemunhar os laços da família se fortalecendo.

Naquele salão estavam reunidas muitas versões da mesma pessoa: a Rita, a Tia Rita, a Rita do Zé Galdino, a vó Rita, a amiga, a vizinha, a confeiteira e a mãe. Cada convidado carregava uma lembrança diferente, mas todos compartilhavam o privilégio de fazer parte de sua história.

Em alguns momentos da festa, parei apenas para observá-la. Cercada por tantas pessoas, ouvindo conversas, recebendo abraços e distribuindo sorrisos, parecia não perceber que era o centro de tudo aquilo. Talvez porque nunca tenha vivido para ser protagonista. Viveu para cuidar, acolher e construir laços. O aniversário era dela, mas a celebração era de todos nós.

Nos dias seguintes, as mensagens continuaram chegando pelas redes sociais, pelos telefonemas e pelas visitas. Sinais de que a comemoração terminara, mas o sentimento permanecia.

E, se depender da mamãe, no próximo ano haverá uma nova festa. Afinal, quando alguém pergunta se ela pretende comemorar mais um aniversário, a resposta vem rápida, acompanhada da fé que sempre guiou sua vida:

— Ano que vem tem mais, se Deus quiser.

E, como ela mesma faz questão de completar:

— E Ele quer.

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