Queijo do Serro entre os melhores do mundo

Texto por: Publicado em: 12 de abril de 2024

O Serro é uma das regiões produtoras do queijo Minas Artesanal há quase três séculos. E esse saber popular foi repassado de geração em geração ao longo desse tempo. A produtora Christiane Brandão é uma das herdeiras desse saber que, associado às capacitações e à prática de produzir com segurança alimentar, a levou a conquistar medalhas de ouro na França com o seu queijo Maria Nunes, classificado entre os 17 melhores do mundo. Para conquistar esse lugar são muitos anos de trabalho e dedicação que vamos conhecer agora.

A maneira artesanal de fazer o queijo de leite cru na região do Serro, em Minas Gerais, foi reconhecida e certificada em 2011, com a Indicação de Procedência (IP), concedida pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). O processo artesanal de produção do queijo do Serro é uma herança do saber fazer dos imigrantes portugueses vindos da região de Serra da Estrela (Portugal) há mais de dois séculos.

Christiane é a quinta geração da família que assume a produção do queijo e a primeira mulher a liderar a queijaria, situada no município de Santo Antônio do Itambé.  Ela e a sua filha, Jady Brandão, comandam a queijaria desde 2012, quando seu pai faleceu repentinamente. “Uma das minhas maiores lutas hoje é mostrar para a sociedade que fortalecer o empoderamento e o protagonismo da mulher do campo é uma ação importante para o desenvolvimento rural sustentável; e trabalhar para isso se tornou o marco da minha trajetória. Na fazenda, eu tenho uma funcionária que me ajuda e faz parte do trabalho que antes só os homens faziam”.

E com essa missão, Cristiane segue produzindo leite de qualidade com o gado a pasto, tratado da forma mais natural possível e com homeopatia, o que reflete na qualidade final do seu queijo. Segundo a produtora, as diferenças que definem o terroir da sua região e o sabor do seu queijo são: altitude, água da região, tipo de gado de pouco leite e pouco trato. A propriedade está há 767 metros de altitude e a sua água é uma vertente das bacias do São Francisco, Rio Doce e Jequitinhonha. O gado é Jersey e a pastagem a braquiária.

O queijo Maria Nunes é produzido e maturado na fazenda. “Logo depois da tirada do leite, bem cedo, ele é encaminhado ao Quarto de Queijo e começa a ser produzido. Leite cru, pingo, coalho, sal e amor. Um modo de fazer tão simples, mas cheio de tradição e valores. Aqui ele é feito como há 300 anos, do mesmo jeitinho. Sai da forma de queijo depois do terceiro dia e vai para a madeira, no ambiente de maturação, com controle de temperatura e umidade, acima de 85%”. Esses são os detalhes principais que influenciam no terroir do Queijo Maria Nunes (altitude, água da região, tipo de gado de pouco leite e pouco trato).

Esse amor todo da Cristiane e de sua equipe já fez o seu queijo ganhar muitos concursos, entre eles a medalha de ouro na França no 6º Mondial du Fromage et des Produits Laitiers Tours (Mundial de Queijos e Produtos Lácteos de Tours). E as vitórias não param. Christiane está entre as 100 pessoas mais influentes do agronegócio de 2024, o Oscar do Agronegócio, no Prêmio 100 Mais Influentes do Agronegócio na categoria Pioneirismo.

Resultado do seu trabalho ativo, não só na fazenda, mas também na Associação dos Produtores Artesanais do Queijo do Serro (Apaqs) e no Sindicato dos Produtores e Trabalhadores Rurais do Serro. “Meu sonho é contribuir para o crescimento da região e para que os produtores de Queijo do Serro possam ter, ainda, seu sustento digno por meio do queijo”, observa a produtora.


Christiane Brandão é a quinta geração da família que assume a produção do queijo

Premiações

Mondial Fromage Tours- França

  • 2019 e 2021, medalha de prata no mundial
  • 2023 medalha de ouro, que a consagrou entre os 17 melhores queijos do mundo

Brasil

  • 2023, medalhas de prata e de bronze no Mundial de Queijo Brasil;
  • 2023 medalhas de Prata Prêmio Queijo Brasil
  • 2023 medalha de bronze pelo quarto ano consecutivo no Prêmio Queijo Brasil
  • 2022 quinto lugar no Concurso Regional do Queijo do Serro

Trajetória & História

Christiane nasceu na roça, onde cresceu vendo o pai trabalhar com produção de queijo e recria de gado. Seu sonho era estudar veterinária e trabalhar na roça, mas, por motivo de força maior, seguiu outro caminho em Belo Horizonte, onde se graduou em Sistemas de Informação com pós-graduação em Gestão. Com o falecimento do pai, em 2012, de forma bruta e repentina, abandonou a vida na capital para assumir os negócios da família.

“Como mulher sempre senti preconceito e uma resistência muito grande, não só vindo do meu próprio pai, como também da família e, claro, da sociedade, o que me afastou ainda mais do meu sonho. Uma das minhas maiores lutas hoje é mostrar para eles, e para a sociedade, que fortalecer o empoderamento e o protagonismo da mulher do campo é uma ação importante para o desenvolvimento rural sustentável, e trabalhar para isso se tornou o marco da minha trajetória. Na fazenda, eu tenho uma funcionária que me ajuda e faz parte do trabalho que antes só os homens faziam”.

Para melhor desenvolver o negócio e trazer esse novo perfil administrativo, implantou o trabalho em equipe e a administração compartilhada, em ambiente onde antes imperava o “coronelismo” de uma região marcada pela escravidão e exploração. “No início, foi difícil. Os funcionários, ou os colaboradores (como gosto de trata-los), não entendiam essa nova forma de trabalhar, onde todos ganham com os resultados dos trabalhos aplicados”, conta.

Christiane destaca a cultura da região e o contraste social. “Nossa região é muito pobre, e ainda não conseguiu desenvolver uma economia que distribua melhor a renda e traga oportunidades para a população explorada há tantos anos. A região do Serro tem traços fortes da exploração e da má distribuição de renda existente no nosso país. Quando eu voltei para o Serro e comecei a conviver com os pequenos produtores, deparei-me com uma realidade muito triste. Existem aqui muitos produtores que trabalham na ilegalidade, a base da agricultura familiar, que não tem recurso e conhecimento para melhorarem a sua produção e são explorados. Sem conseguir escoar a produção, vendem seus queijos a preços que mal pagam seus custos. Vejo muitas famílias deixando de produzir e abandonando a tradição familiar de várias gerações. Hoje, com meu trabalho, procuro ajudar, orientar e desenvolver ações que consigam mudar essa triste realidade”.

Patrimônio Imaterial

Considerado o primeiro patrimônio imaterial do Brasil, o queijo foi estudado pelo historiador e professor da Escola de Veterinária da UFMG, José Newton Coelho Meneses, contratado para elaborar um dossiê interpretativo que compõe o Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC) do Iphan, a partir do qual é feita a avaliação dos pedidos de registro de bens de patrimônio de natureza imaterial.

A elaboração do dossiê interpretativo sobre o queijo artesanal de Minas durou dois anos. O professor visitou as regiões do Serro, Canastra e Alto Paranaíba, que se destacam na produção da iguaria. Cada região possui sua tipologia específica de produção do queijo, mas há características comuns que permitem identificar um modo de fazer queijo artesanal.

O queijo artesanal do Serro é o 14º produto brasileiro reconhecido pela Indicação Geográfica (IG), um dos serviços do INPI. Além do Serro, o queijo minas artesanal é produzido em outras quatro regiões demarcadas pelo Programa Queijo Minas Artesanal: Cerrado, Araxá, Campos das Vertentes e Canastra.

9 Comments

  1. Delson de Miranda Tolentino 15 de abril de 2024 at 12:08 - Reply

    Parabens Cristiane, um belo trabalho, um projeto vitorioso, com muito sacrifício, imagino, com grandes desafios, mas principalmente, um pensamento progressista num meio conservador. Abraços !

  2. Guilherme 15 de abril de 2024 at 13:31 - Reply

    Parabéns pelo trabalho que vc vem fazendo e divulgando essa maravilha que vc faz viu sou fã de seu trabalho parabéns que Deus abençoe sempre

  3. Jean Carllo de Souza Silva 15 de abril de 2024 at 14:11 - Reply

    Ótima reportagem!

  4. Vicente Pifano 15 de abril de 2024 at 19:34 - Reply

    Cristiane Brandão é um exemplo para todos de determinação e de luta pelos seus objetivos e valores, por isso merece o meu respeito. Parabéns e muito sucesso 👏👏👏👏👏.

  5. Teresa 15 de abril de 2024 at 19:38 - Reply

    Excelente matéria! Muita honra ver o engajamento!

  6. Silma Horta Alves 16 de abril de 2024 at 17:56 - Reply

    Parabéns Cristiane, uma guerreira, q produz o queijo artesanal com mto amor e garra!

  7. Soraya Lessa 17 de abril de 2024 at 06:44 - Reply

    A colheita de tudo que se planta com dedicação e carinho é certa. Christiane Brandão é um exemplo de resiliência e superação. Parabéns pelo esplêndido trabalho que você realiza. Aproveito para parabenizar também aos envolvidos nessa matéria pelo merecido reconhecimento!

  8. Francismar Pires Ramos 20 de abril de 2024 at 06:10 - Reply

    Onde comprar desse queijo?
    Moro na baixada, queimados Rio de Janeiro.

  9. Christiane Brandão 14 de junho de 2024 at 21:23 - Reply

    Muito obrigada a todos pelas mensagens! Deus abençoe a cada um de vcs! Obrigada pelo carinho de coração!

    http://www.queijomarianunes.com.br

    E o site pra venda. Qualquer dúvida me fala aqui no WhatsApp 319 93552311

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